Pausa para hidratação é mesmo necessária para saúde dos jogadores na Copa?
A pausa para hidratação virou um dos assuntos mais comentados da Copa do Mundo de 2026. Mas o que isso muda na saúde dos jogadores e no andamento da partida?.
O que aconteceu
– A Fifa instituiu pausas obrigatórias para hidratação em todos os jogos da Copa. A parada dura três minutos e acontece por volta dos 22 minutos de cada tempo, independentemente da temperatura, do estádio ou do horário da partida.
Jogadores do Brasil durante para para hidratação no jogo contra Marrocos, nos EUA – | Foto:(Reprodução/Intenet)
– A medida dividiu opiniões entre jogadores, técnicos e torcedores. Parte dos envolvidos vê a pausa como uma proteção necessária para atletas que jogam no verão da América do Norte. Outros reclamam que ela quebra a continuidade do futebol e transforma a partida em uma espécie de jogo dividido em quatro quartos.
– A Fifa diz que a decisão foi tomada por segurança. A entidade defende que a regra cria condições iguais para todas as seleções e ajuda a preservar os jogadores em um torneio disputado em cidades com calor intenso, umidade e longas viagens.
Não é só beber água.
– Na prática, a pausa não serve apenas para beber água. Segundo Ana Paula Simões, médica do esporte, o intervalo funciona mais como uma medida de resfriamento e manutenção do corpo do que como uma reidratação completa.
– O impacto também é tático. Treinadores usam os três minutos para corrigir posicionamento, mudar marcação, acalmar o time ou quebrar o embalo do adversário. Por isso, alguns técnicos passaram a chamar a parada de “coaching break”, ou pausa de orientação, mais do que apenas pausa de hidratação.
O que o calor faz no corpo do jogador.
Achraf Hakimi se hidrata após forte calor em Brasil x Marrocos Imagem: Catherine Ivill – AMA/Getty Images
– O corpo de um jogador em uma partida já produz calor naturalmente pelo esforço físico. Quando o jogo acontece em ambiente de alta temperatura, como os estádios abertos no verão dos EUA, o organismo precisa trabalhar mais para manter a chamada homeostase, ou seja, o equilíbrio interno.
– Nesse cenário, o corpo passa a lidar com duas demandas ao mesmo tempo. Levar sangue para músculos, que precisam continuar correndo, acelerando e mudando de direção, e levar sangue para a pele, para tentar diminuir o calor.
– Esse processo aumenta a chamada sudorese. Com o suor, o atleta perde água e sais minerais, principalmente sódio. É por isso que alguns jogadores ficam com marcas brancas e sensação de “salgado” na pele depois de muito esforço.
“Com o suor, a gente vai perdendo água e sais. É aquele ‘salgadinho’, o sal que fica na pele. Tem algumas pessoas que ficam parecendo cheias de areia, mas, na verdade, são os eletrólitos, principalmente o sódio”
– Ana Paula Simões
– A consequência é a redução do volume de sangue circulante, já que parte da água ajuda a compor o sangue. Com menos sangue disponível, o coração precisa bater mais rápido para tentar compensar. Ao mesmo tempo, a temperatura interna pode continuar subindo.

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Como isso aparece dentro do jogo
– Com menos sangue circulando, chega menos oxigênio aos músculos. O atleta começa a sentir fadiga mais cedo, perde velocidade, tem queda de explosão e passa a repetir sprints maior velocidade que um jogador pode alcançar— com mais dificuldade.
– No segundo tempo, isso pode ser ainda mais visível. O jogador pode demorar mais para reagir, chegar atrasado em disputas, errar passes simples e perder precisão em decisões que normalmente seriam automáticas.
– O calor também afeta a parte cognitiva. Ou seja, não desgasta apenas perna, pulmão e coração, mas também interfere no raciocínio. “O jogador passa a ter dificuldade nas escolhas, até para fazer um passe”, diz Ana Paula.
E as cãibras?
– A desidratação e a perda de eletrólitos também podem contribuir para cãibras. Isso acontece principalmente quando a reposição de líquidos e sais não é suficiente para o nível de esforço e calor. Ana Paula lembra que atletas podem ter cãibras mesmo se hidratando durante a partida.
– Isso indica que a reposição feita no jogo nem sempre dá conta do que o corpo perdeu. “A gente viu jogadores tendo cãibras mesmo fazendo hidratação. Então, é um sinal de que a hidratação não está sendo suficiente, principalmente em relação aos eletrólitos.”
Três minutos são suficientes?
Seleção brasileira na pausa para hidratação em jogo na Copa do Mundo – | Foto:(Reprodução/Intenet)
– Se o atleta já estiver desidratado, três minutos não são suficientes para reverter o quadro. Não há tempo para repor todo o volume perdido nem para corrigir completamente a queda de líquidos e sais no organismo.
– Mas, como medida de contenção durante a partida, a pausa ajuda. Ela permite que o jogador diminua o ritmo, reduza a frequência cardíaca, resfrie o corpo por alguns instantes e faça uma reposição básica de líquido e eletrólitos. “É como se fosse um respiro para o corpo”, explica Ana Paula.
– A pausa deve ser vista mais como manutenção do que como solução completa. O atleta precisa chegar ao jogo bem hidratado. Durante a partida, os três minutos servem para evitar que a perda avance rápido demais.
A pausa melhora o jogo?
– Para Ana Paula, a pausa tem dois efeitos: protege o atleta e ajuda a impedir que o jogo piore. A lógica é que o calor poderia derrubar o rendimento técnico e físico de forma mais acentuada. Com a parada, o atleta consegue sustentar por mais tempo um nível alto de desempenho. “Ela protege o atleta de chegar a um estágio extremo.” Ou seja, a pausa não necessariamente deixa o jogo mais bonito, mas pode evitar que o calor torne a partida pior, mais lenta e mais propensa a erros técnicos.
“Quando você segura essa temperatura interna e repõe os sais, o jogador mantém um nível de desempenho que cairia se não houvesse a pausa. Então, isso ajuda a manter o espetáculo em alto rendimento”
Por que tanta gente reclama?
– A principal crítica é que a pausa quebra o ritmo do futebol. O técnico Gustavo Alfaro, do Paraguai, foi um dos nomes mais duros contra a regra. Ele disse que a continuidade do jogo é quebrada e reclamou que as partidas acabam parecendo disputadas em quatro quartos, e não em dois tempos.
– Marcelo Bielsa, técnico do Uruguai, também criticou a medida. Para ele, a pausa não acrescenta ao futebol e muda a continuidade, característica histórica do esporte.
– Entre os jogadores, Virgil van Dijk, capitão da Holanda, afirmou que entende a parada em jogos de muito calor. O zagueiro, contudo, questionou a obrigatoriedade em todas as partidas e criticou a ida para comerciais durante a transmissão.
– Do lado dos técnicos favoráveis, Rudi Garcia, da Bélgica, disse ver a parada mais como uma pausa de orientação do que de resfriamento. Segundo o treinador, o intervalo é útil para passar informações táticas.
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Por: Igor Ribeiro – De VivaBem, em São Paulo
Fonte: Ana Paula Simões, médica do esporte
Transcrito: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2026/06/26/por-que-pausa-na-copa-pode-melhorar-performance-e-hidrata-corpo-do-jogador.ghtm


