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Endorfinas, vínculo social e mais: como a corrida melhora sua saúde mental

A corrida entra na vida de muita gente por motivos físicos: ganhar resistência, reduzir a gordura corporal, aumentar o fôlego para praticar outro esporte. Mas, com o tempo, muitos percebem que a transformação não ocorre só no corpo. Ela aparece também no humor, na disposição e na forma de encarar dificuldades no dia a dia. E essa percepção tem respaldo científico.

Uma revisão de estudos aponta que o exercício pode ser uma ajuda importante para reduzir sintomas depressivos. A pesquisa não coloca a corrida ou outros esportes como substituto do tratamento médico ou psicológico, mas reforça seu papel como ferramenta complementar no cuidado com a saúde mental. E parte desse efeito vem de toda a biologia do movimento.

“Trata-se de uma resposta integrada, envolvendo neurotransmissores relacionados ao prazer e à motivação, hormônios ligados à adaptação ao estresse e fatores neurobiológicos que promovem plasticidade cerebral e regulação emocional”, afirma a psicóloga esportiva Bianca Andrade.

A corrida ajuda a regular o estresse

 – | Foto:(Reprodução/Internet)

Um dos fatores mais importantes dessa relação é que a corrida ajuda na regulação do estresse, comum no dia a dia de muita gente. O estresse mantém o organismo em estado de alerta, gerando fadiga, irritabilidade e dificuldade de concentração. O exercício regular planejado age em outra direção: “A corrida é um estresse físico voluntário e controlado. Ao submeter o corpo ao esforço físico de forma regular, você treina o seu sistema nervoso autônomo a se recuperar mais rapidamente”, explica o treinador Fernando Guerreiro, diretor técnico da assessoria esporte Holy Flow.

Na corrida, o cérebro aprende a tolerar o esforço físico e passa a responder melhor às pressões psicológicas do dia a dia. Esse processo ajuda a explicar por que a regularidade nos treinos é fundamental. “A regularidade da prática parece ser mais importante do que a intensidade ou a duração de um treino isolado”, enfatiza Andrade. Ou seja, correr de forma sustentável por meses costuma ser o melhor caminho para aproveitar os benefícios.

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Alguns sinais de que a corrida está atuando de forma positiva na rotina:

– Menor tensão corporal depois dos treinos leves

– Mais disposição para tarefas do dia a dia

-Sensação de pausa mental em dias sobrecarregados

– Mais confiança para cumprir pequenas metas

– Melhor percepção dos sinais do próprio corpo

Esses efeitos não aparecem da mesma forma para todos. Sono, alimentação, histórico emocional, carga de treino e momento de vida interferem bastante. Ainda assim, a combinação de movimento, respiração e tarefa concluída cria um ambiente favorável para regular emoções e para o combate ao estresse.

O ‘barato do corredor’: endorfinas e muito mais

Exercício ao ar livre, respiração, bem-estar – | Foto:(Reprodução/Internet)

Durante muito tempo, o chamado “barato do corredor”, aquela sensação prazerosa de leveza e euforia depois de um treino, foi explicado pelas endorfinas. A liberação dessas substâncias durante a atividade física realmente em relação, mas hoje a ciência vê esse fenômeno de maneira mais ampla. Um estudo avaliou corredores antes e depois de um treino ao ar livre de 60 minutos e analisou outras substâncias, como os endocanabinoides, que aumentam sua concentração no corpo após a corrida.

Guerreiro chama esse processo de “banho de endocanabinoides”. “As endorfinas possuem moléculas grandes demais para cruzarem a barreira hematoencefálica (uma espécie de ‘filtro de proteção’ entre o sangue e o cérebro) com facilidade”, explica. “Já os endocanabinoides, como a anandamida, promovem uma sensação imediata de paz, redução da dor e estabilização de humor”.

Outras substâncias também participam dessa resposta:

– Serotonina: está relacionada à regulação do humor e da ansiedade;

– Dopamina: atua nos circuitos de recompensa e motivação;

– Noradrenalina: contribui para a atenção e a disposição;

Cortisol: embora seja conhecido como hormônio do estresse, também participa da adaptação normal ao exercício:

Estudos ainda mostram que a corrida pode ajudar o cérebro a se adaptar melhor ao estresse. Uma revisão publicada na Frontiers in Physiology analisou a relação entre exercício, depressão e BDNF, uma proteína que ajuda o cérebro a formar e reorganizar conexões entre os neurônios. Na prática, a conclusão é que a atividade física regular pode favorecer mais clareza mental, melhor controle das emoções e uma resposta mais equilibrada às pressões do dia a dia.

Cada treino mexe com a mente de um jeito

Nem todo treino produz o mesmo efeito emocional. A corrida leve costuma funcionar como uma desaceleração ativa, porque permite respirar melhor, observar o corpo e terminar com a sensação de controle. Para quem vive em ritmo acelerado, começar a correr com orientação e de forma controlada e regular pode ser um treino importante de paciência e presença.

Fernando Guerreiro afirma que “correr devagar exige maturidade para ignorar a velocidade alheia e focar estritamente no seu plano de longo prazo”. Já os treinos intensos podem gerar uma sensação forte de descarga emocional, desde que sejam bem dosados e não apareçam como cobrança diária.

O profissional de educação física e supervisor técnico Camilo Alves, da assessoria Run&Fun, enfatiza, porém, que todos os estímulos podem contribuir. “Qualquer treino é capaz de provocar alterações químicas no cérebro e contribuir para o bem-estar. Cada um, porém, pode exercer um papel específico.”

O treinador explica que os treinos intensos “costumam gerar uma grande liberação de endorfina, proporcionando uma sensação de prazer e satisfação logo após o exercício”. Já os treinos longos e/ou contínuos, feitos de forma mais leve, podem ser “quase meditativos ou terapêuticos”, porque o atleta passa um período significativo em contato consigo mesmo.

Grupo, natureza e pertencimento

– | Foto:(Reprodução/Internet)

A corrida também melhora a saúde emocional por caminhos que não dependem apenas de hormônios. O componente social tem peso importante. Correr em grupo (em assessorias ou com amigos) cria convivência, compromisso e sensação de pertencimento, fatores que ajudam a reduzir isolamento e solidão.

A psicóloga Bianca Andrade destaca que a corrida em grupo cria “oportunidades para o estabelecimento de vínculos, senso de pertencimento e apoio social”.

Camilo Alves conta que observa isso no dia a dia dos treinos com seus alunos: segundo ele, em um mundo com mais home office, telas e rotina solitária, os grupos de corrida viraram espaço para conversar, criar vínculos e se desconectar do trabalho.

A prática de exercício ao ar livre também faz diferença na saúde emocional. Uma revisão de estudos encontrou associação entre contato com a natureza e a melhora de indicadores como saúde mental, função cognitiva e sono. Isso não significa que correr na esteira não funciona, mas luz natural, ar livre, paisagem e mudança de cenário podem ajudar quem passa muitas horas em ambientes fechados.

“A corrida ao ar livre cria uma quebra concreta no dia e favorece uma sensação maior de presença”

Cuidado quando a corrida vira cobrança

Apesar dos benefícios, a corrida também pode se transformar em fonte de ansiedade. Isso acontece quando o treino deixa de ser ferramenta de cuidado e vira obrigação rígida. Relógio, pace, planilha, comparação e busca por recordes podem estimular evolução, mas também alimentar frustração.

Fernando Guerreiro resume em uma frase direta: “O relógio é um excelente copiloto, mas ele é um péssimo juiz da sua vida”. Para o treinador, a corrida perde parte do valor quando a satisfação depende apenas de bater recordes, receber elogios ou provar desempenho para outras pessoas.

Sinais de uma relação pouco saudável com o exercício:

– Culpa intensa ao perder um treino

– Irritabilidade quando não é possível correr

– Insistência em treinar mesmo com dor ou lesão

– Sensação de que só é possível ficar bem depois de correr

Quando esses sinais aparecem, a corrida pode estar ocupando um espaço excessivo. Ela deve ser uma ferramenta de regulação emocional, não a única. Relações, descanso, lazer, terapia, sono e outras formas de cuidado também precisam existir.

Evoluir muda a forma de se enxergar

Um dos efeitos emocionais mais fortes da corrida aparece quando a pessoa percebe evolução. Correr alguns minutos a mais, completar uma distância antes impensável ou sentir o fôlego melhorar cria uma prova concreta de capacidade. “A corrida mostra às pessoas que elas são capazes de chegar mais longe e conquistar objetivos que antes pareciam impossíveis”, diz Camilo. Essa percepção fortalece a autoestima, a confiança e a disposição para enfrentar desafios.

A conclusão mais concreta é que a corrida ajuda a saúde emocional porque combina corpo, cérebro, rotina, vínculo e sensação de progresso. Ela não é cura universal e não substitui acompanhamento profissional em quadros de depressão, ansiedade intensa ou sofrimento persistente. Mas, quando bem dosada, pode ser uma aliada poderosa para voltar ao corpo, organizar a mente e atravessar melhor os dias difíceis.

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Por: Colaboração para o UOL

Fonte: Bianca Andrade, psicóloga clínica do esporte e de atletas olímpicos, doutora em psicologia do desenvolvimento e aprendizagem pela Unesp, sócia da clínica Cada Uma É Uma, instrutora Mindful Sport Performance Enhancement;

Camilo Alves, profissional de educação física e supervisor técnico da Run&Fun Assessoria Esportiva

Fernando Guerreiro é formado em educação física, especializado em treinamento funcional e ultramaratonista e diretor técnico da assessoria esportiva Holy Flow

Transcrito: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2026/06/24/endorfina-autoestima-e-mais-como-a-corrida-melhora-sua-saude-mental.ghtm

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