Quando abrir mão do peso ideal pode ser mais saudável do que persegui-lo
Quando fazemos da balança a única medida de sucesso podemos prejudicar outras áreas, como o bem-estar físico e mental
Existe uma velha metáfora sobre a captura de macacos. Dentro de uma cumbuca de coco coloca-se uma fruta. A abertura é grande o suficiente para a mão vazia entrar, mas pequena demais para que ela saia fechada em torno do alimento.
O macaco poderia escapar em um instante. Bastaria soltar a fruta. Mas ele insiste em mantê-la. E é justamente esse apego que o aprisiona.
Há algo profundamente humano nessa imagem. Na busca pelo chamado “peso ideal”, muitas pessoas acabam fazendo exatamente o mesmo.
Elas colocam toda a felicidade, autoestima e sensação de sucesso em um único número exibido pela balança. Agarram-se a ele com tanta força que deixam de perceber o quanto essa obsessão limita suas escolhas e sua qualidade de vida.
A busca pelo peso ideal pode motivar mudanças saudáveis, mas também se transformar em uma armadilha – | Foto:(Reprodução/Intenet)
A ciência mostra que o peso corporal é um fenômeno complexo. Ele resulta da interação entre genética, hormônios, microbiota, ambiente, sono, atividade física, alimentação, estresse e inúmeros outros fatores. Não existe um único peso mágico capaz de definir saúde, beleza ou competência.
Ainda assim, seguimos perseguindo um número que muitas vezes foi escolhido de forma arbitrária: o peso que tínhamos aos 20 anos,o peso de uma celebridade, o peso sugerido por uma tabela ou por um aplicativo.
Essa busca costuma produzir um efeito perverso: quanto maior a obsessão pelo peso, maior a probabilidade de dietas restritivas, episódios de compulsão, culpa ao comer e abandono de hábitos saudáveis.
O foco deixa de ser construir saúde e passa a ser controlar a balança. É um paradoxo. Pessoas podem estar melhorando o condicionamento físico, ganhando massa muscular, reduzindo gordura visceral, dormindo melhor, controlando a pressão arterial e a glicemia, mas sentem-se fracassadas porque a balança não mostrou o número esperado.

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Nesse momento, a balança deixa de ser uma ferramenta e passa a ser uma prisão. Assim, talvez a pergunta mais importante não seja “qual é o meu peso ideal?”, mas sim: “o que estou segurando que me impede de viver melhor?”.
Se o único objetivo for atingir um número específico, qualquer oscilação será interpretada como derrota. Porém, quando o objetivo passa a ser saúde, autonomia, força, disposição e longevidade, o peso torna-se apenas uma consequência — importante, mas não soberana.
Como na metáfora do macaco, muitas vezes a liberdade exige abrir a mão. Não para desistir de cuidar do corpo, mas para abandonar a ilusão de que existe um número capaz de definir quem somos.
Porque saúde não cabe em uma balança. E felicidade, muito menos.
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Por: Antonio Lancha Jr.
Fonte: Antonio Lancha Jr, professor expert em atividade física e nutrição da USP e autor de livros como “O Fim das Dietas”, ensina como emagrecer sem cair em promessas furadas
Transcrito: https://saude.abril.com.br/coluna/o-fim-das-dietas/por-que-abrir-mao-do-peso-ideal-pode-ser-mais-saudavel-do-que-persegui-lo/


