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Obesidade infantil: por que tratar cedo faz diferença no futuro

O excesso de peso infantil já atinge uma em cada três crianças e adolescentes no Brasil. Em 2025, 33% dos brasileiros de 0 a 19 anos acompanhados pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional apresentavam sobrepeso, obesidade e obesidade grave.

O cenário também preocupa no restante do mundo. Segundo o World Obesity Atlas 2026, quase 20% das crianças em idade escolar viviam com obesidade em 2022 eram apenas 4% em 1975. A entidade projeta ainda 507 milhões de crianças de 5 a 19 anos com excesso de peso ou obesidade em 2040.

Quanto mais cedo a obesidade aparece, maior tende a ser o impacto sobre a saúde. Resistência à insulina, hipertensão, alterações cardiovasculares, problemas articulares e transtornos relacionados ao sono podem surgir ainda na infância ou adolescência, além de aumentar o risco de doenças na vida adulta.

Quanto mais cedo, maior o risco

O excesso de peso na infância pode afetar a saúde muito antes da vida adulta e aumentar o risco de doenças crônicas – | Foto:(Reprodução/Internet)

O acompanhamento deve começar desde os primeiros anos de vida. Em consultas pediátricas, o médico avalia o IMC de acordo com a idade e o sexo, usando curvas específicas para crianças. O cálculo não segue a mesma lógica utilizada em adultos.

A ideia de esperar a puberdade para a criança “esticar” e perder o excesso de gordura já não encontra respaldo. Obesidade entre 4 e 6 anos aumenta o risco de permanência do quadro na adolescência e na fase adulta. Quanto mais precoce e intensa a obesidade, maior a preocupação.

Um trabalho apresentado no Congresso Europeu de Obesidade de 2024 chamou atenção ao estimar expectativa média de vida de 39 anos para crianças com obesidade grave. Em adultos, o histórico de obesidade desde a infância também ajuda a identificar um período mais longo de exposição à resistência à insulina, pressão elevada e excesso de gordura circulante, fatores capazes de acumular danos cardiovasculares.

Por que a criança ganha peso?

Não existe uma única causa. Genética, alimentação ruim, sono de má qualidade, falta de atividade física, microbioma intestinal, condições nutricionais maternas durante a gestação, medicamentos e exposição a determinados poluentes capazes de desregular as glândulas podem participar do processo.

Na América Latina, um fator merece atenção especial: o consumo de ultraprocessados. Um artigo publicado na Nature Metabolism pelo professor Licio Velloso, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), destaca o peso desses produtos na obesidade infantil. Além de altamente calóricos, ricos em gorduras e açúcares, eles costumam ter preço mais acessível do que alimentos frescos em países em desenvolvimento.

Por isso, a obesidade não deve ser tratada como resultado de falta de disciplina da criança ou falha dos pais. São diversos fatores biológicos e ambientais envolvidos.

O cérebro também entra nessa história

O hipotálamo é uma região cerebral que participa do controle da fome e do gasto energético. Pesquisas conduzidas por Velloso e colaboradores identificaram alterações em sua estrutura e funcionamento associadas à obesidade iniciada na infância, principalmente diante do consumo elevado de alimentos ricos em gordura.

Essa desregulação pode aumentar o apetite e ajudar a explicar por que, com o passar do tempo, fica mais difícil controlar a obesidade apenas com mudanças na alimentação. O comportamento alimentar não depende apenas de força de vontade.

Doenças de adulto podem aparecer cedo

A obesidade infantil pode favorecer alterações como resistência à insulina e diabetes tipo 2 ainda na infância ou adolescência – | Foto:(Reprodução/Internet)

Colesterol elevado, formação de placas nas artérias e hipertensão já podem surgir em crianças e adolescentes com obesidade. O diabetes tipo 2 também deixou de ser uma condição rara nessa faixa etária.

Um dos primeiros passos desse processo é a resistência à insulina. Para compensar a dificuldade das células em utilizar a glicose, o pâncreas aumenta a produção do hormônio. Em adultos, a evolução até o diabetes tipo 2 costuma levar mais de uma década. Em adolescentes, pode ocorrer em apenas um a três anos.

O excesso de peso também sobrecarrega articulações. Uma complicação possível é o deslizamento da epífise do quadril e do fêmur, capaz de provocar dor, deformidades e dificuldade para caminhar. Com o tempo, essas alterações podem favorecer desgaste precoce da cartilagem e osteoartrose na vida adulta.

Há ainda apneia do sono e maior risco cardiovascular, além dos impactos sobre a saúde mental. Baixa autoestima, bullying e depressão podem deixar marcas duradouras.

Tratar sem transformar o peso em ameaça

O tratamento precoce busca interromper a progressão da doença antes de um acúmulo maior de danos. As diretrizes da Academia Americana de Pediatria defendem justamente uma abordagem precoce, sem esperar o agravamento do quadro.

Isso não significa colocar a criança sob pressão para emagrecer ou usar o medo como argumento. Ameaças sobre doenças e morte podem aumentar o estresse e prejudicar ainda mais a saúde mental.

O foco deve estar nos adultos e na equipe de saúde. Cabe a eles identificar o problema, entender seus fatores envolvidos e construir estratégias adequadas para cada criança.

*Com informações de reportagem publicada em 26/09/2024.

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Por: Colaboração para VivaBem*

Fonte: professor Licio Velloso, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)

World Obesity Atlas 2026

Transcrito: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2026/08/26/obesidade-infantil-por-que-tratar-cedo-faz-diferenca-no-futuro.ghtm

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