Comer bem é revolucionário (para o seu corpo e para o planeta)
A Dieta da Saúde Planetária é a fórmula que a ciência encontrou para alimentar o mundo sem destruir sua casa. O problema é o que domina as prateleiras e quem consegue escapar dos ultraprocessados
Comer carne ou ser vegetariana? Laticínios pode ou é melhor evitar? Aquela barrinha de proteína no meio da tarde é uma boa ideia? Todas as nossas escolhas alimentares fazem diferença, tanto para nosso organismo quanto para o do planeta. Segundo a EAT-Lancet Commission uma união entre a organização sem fins lucrativos EAT e o respeitado jornal científico The Lancet, com mais de 70 pesquisadores de áreas como nutrição, saúde, clima, economia e agricultura, a alimentação é a alavanca mais poderosa para promover a saúde humana e a sustentabilidade da Terra.
– | Foto:(Reprodução/Internet)
“A Dieta da Saúde Planetária é um guia para governos e indivíduos que desejam construir sistemas alimentares mais saudáveis, justos e sustentáveis”
Dito isso: existe uma receita capaz de alimentar toda a população mundial de forma saudável, sem que ultrapassemos os limites planetários? A resposta é sim. De acordo com a atualização de 2025 da EAT-Lancet Commission, essa fórmula existe e tem nome: Dieta da Saúde Planetária.
Sua proposta é aumentar o consumo de alimentos de origem vegetal (frutas, verduras, grãos integrais, nozes e leguminosas) e reduzir o de carne vermelha e ultraprocessados.
E aqui vale entender o porquê. Produzir carne, especialmente bovina, exige desmatar para criar pastagem e cultivar ração para os animais. Esse processo libera CO₂, e o próprio gado emite metano durante a digestão. O resultado: segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a criação de animais para consumo responde por mais emissões de gases de efeito estufa do que todo o setor de transporte mundial e, de acordo com estudo publicado na revista científica Science, ocupa 83% das terras cultiváveis do planeta, apesar de fornecer apenas 18% das calorias que a humanidade consome.
Migrar para uma alimentação com mais vegetais e menos carne pode reduzir drasticamente essa pressão sobre o clima, a terra e a água. E ainda traria outro ganho: de acordo com o Ministério da Saúde, o consumo excessivo de carne vermelha e ultraprocessados está associado a doenças como câncer, diabetes e problemas cardiovasculares.
A Dieta da Saúde Planetária funciona, portanto, como um guia para governos e indivíduos que desejam construir sistemas alimentares mais saudáveis, justos e sustentáveis. Flexível, foi pensada para ser adaptada às culturas e aos ecossistemas de cada região. Na teoria é viável. Na prática, porém, o cenário é um pouco diferente.
No Brasil e no mundo, bolachas, refeições congeladas de longa validade, bisnaguinhas, cereais matinais açucarados, temperos em pó, barrinhas de proteína e uma infinidade de outros produtos ultraprocessados, muitas vezes vendidos como sinônimo de saúde, têm dominado cada vez mais as prateleiras de supermercados, mercadinhos, quitandas e até farmácias. São produtos geralmente mais baratos, mais práticos e embalados com promessas que confundem o consumidor. Um relatório do Ministério da Saúde em parceria com a Anvisa, a Opas e o Nupens/USP, divulgado em 2025, mostrou que, dos 39 mil alimentos e bebidas embalados lançados no Brasil entre novembro de 2020 e novembro de 2024, 62% eram ultraprocessados, e apenas 18,4% eram in natura ou minimamente processados. Tal crescimento vem acompanhando uma mudança profunda no padrão alimentar.
Já parou para ler os rótulos dos produtos que consome? Nós já. E essa não é uma tarefa simples. Em muitos casos, nem sequer é possível identificar qual é o alimento de origem.
Há produtos “de brócolis” que não contêm brócolis de verdade. É o caso de alguns macarrões instantâneos em que o sabor aparece mais no nome e no aroma do que na composição. O mesmo vale para chocolates que dispensam a manteiga de cacau. O Idec, Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, chama esse artifício de ingrediente fantasma, quando o elemento é anunciado na embalagem como benéfico, mas ausente da fórmula. No lugar do que foi prometido, aparecem listas extensas de corantes, estabilizantes, aromatizantes e substâncias de nomes indecifráveis — um sinal claro de alto grau de processamento e, frequentemente, de excesso de sal, açúcar ou gordura.

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Falar de alimentação também é falar de desigualdade
Em muitas regiões do Brasil, o acesso a alimentos frescos é limitado ou simplesmente inexistente. Há pessoas que percorrem longas distâncias para encontrar comida de verdade. Essas áreas têm um nome: desertos alimentares. O Joio e O Trigo, plataforma de jornalismo investigativo especializada em alimentação, define esses territórios como regiões com pouca disponibilidade ou dificuldade de acesso físico a estabelecimentos que oferecem alimentos in natura ou minimamente processados.
No extremo oposto estão os pântanos alimentares: lugares onde a oferta de ultraprocessados é excessiva ou, muitas vezes, a única opção disponível. As estações de metrô são um exemplo comum. Como explica O Joio e O Trigo, são ambientes com vasta oferta de ultraprocessados e estímulo ao consumo excessivo o que os torna, por definição, obesogênicos.
Além do mais, neste país comer de forma nutritiva e equilibrada é privilégio, e não apenas de quem pode pagar por isso. É também o privilégio de quem teve acesso à informação, à educação alimentar, a uma família que oferece refeições com ingredientes frescos, a um bairro com feira ou mercado com produtos variados por perto. Para muita gente, os ultraprocessados não são escolha: são o que sempre esteve disponível, o que foi ensinado como comida, o que cabe no orçamento e no tempo. Mudar esse padrão exige muito mais do que boa vontade individual.
Modelos que merecem ser replicados
Pense com a gente. Perto da sua casa há um restaurante por quilo? Se sim, nele você pode montar os pratos mais diversos possíveis: arroz e feijão quase sempre formam a base, mas junto podem entrar cenoura, legumes, purê, torta, macarrão e até comida japonesa, se der vontade.
Esse modelo de restaurante, somado aos buffets e ao tradicional prato feito (PF), ajuda o brasileiro a manter uma alimentação minimamente saudável.
Como lembrou Ricardo Abramovay, então Professor Titular da Cátedra Josué de Castro da Faculdade de Saúde Pública da USP, em entrevista ao nosso podcast Microrrevoluções: “Se o Brasil não tem o nível de obesidade do México, dos Estados Unidos ou da Grã-Bretanha, uma das razões é o restaurante por quilo. O americano, no almoço, come um hambúrguer. O brasileiro vai ao quilo e encontra minimamente uma oferta de folhas e alimentos variados.”
Outro exemplo é o Guia Alimentar para a População Brasileira, reconhecido internacionalmente como uma referência completa e inovadora em nutrição pública. Suas diretrizes defendem que alimentação saudável vai muito além dos nutrientes: envolve cultura, tempo, convivência e sustentabilidade. O guia recomenda priorizar alimentos frescos e minimamente processados, valorizar refeições caseiras, respeitar os ritmos da natureza e desconfiar das embalagens coloridas.
Até a nossa cesta básica oferece pistas sobre o caminho: ela é historicamente construída em torno de alimentos in natura e minimamente processados, não de ultraprocessados.
Diante da oferta crescente desses produtos, dos preços mais acessíveis e de campanhas de marketing que confundem o consumidor sobre o que é saudável, muita gente acaba trocando comida de verdade pela praticidade.
Nosso convite é pensar nas pequenas mudanças que podemos fazer no dia a dia para levar uma vida mais sustentável e aqui entram as microrrevoluções, começando pela ideia simples de ler o rótulo daquilo que vamos consumir. E uma forma de identificar os ultraprocessados, segundo o Ministério da Saúde, é observar se o produto tem listas longas e complexas de ingredientes. Se sim, melhor evitar.
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Por: Mina bem estar
Fonte: Ricardo Abramovay, então Professor Titular da Cátedra Josué de Castro da Faculdade de Saúde Pública da USP
Guia Alimentar para a População Brasileira,
Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO)
Idec, Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor
EAT-Lancet Commission uma união entre a organização sem fins lucrativos
Anvisa
Nupens/USP
Ministério da Saúde
Transcrito: https://minabemestar.uol.com.br/comer-bem-dieta-saude-planetaria-ultraprocessados/


