Correr acelera o envelhecimento? Veja o que é mito e verdade sobre a corrida
Correr traz benefícios para a saúde física e mental, mas em excesso, pode causar alguns prejuízos. Entenda
A corrida, uma das atividades físicas favoritas dos brasileiros, costuma ser vista como altamente benéfica ajuda no emagrecimento, melhora o sono, fortalece o coração e por aí vai. Mesmo assim, o esporte, que é um dos mais antigos do mundo, ganhou nos últimos meses uma pecha de vilão.

Um vídeo que viralizou nas redes sociais afirma que a corrida acelera o envelhecimento em até 500%, aumenta o cortisol (hormônio associado ao estresse), prejudica o colágeno e as articulações, faz a pessoa perder massa magra, deixa os corredores “viciados” em dopamina, entre outros.
Mas será que isso é verdade ou só mais uma isca para colher curtidas? O Portal Drauzio ouviu especialistas para separar mito e realidade. E adiantamos: boa parte é desinformação, mas há meias verdades.

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Correr todos os dias causa lesões? Depende
Toda atividade feita em excesso e sem adaptação não é saudável e pode causar lesões, segundo Marco Antonio Pedroni, médico ortopedista e do esporte, doutor em Ciências da Saúde e professor da Escola de Medicina de Ciências da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
“O exercício físico deve ser adaptado a cada tipo de pessoa. Então, se você tiver uma capacidade aeróbica que permita correr em um sistema músculo esquelético suficientemente forte e preparado para isso, você vai conseguir correr e ter uma qualidade de vida e saúde boa”, explica.
Para Evando Gois, ortopedista pediátrico do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba (PR), correr diariamente é seguro para quem já tem bom condicionamento e treinamento adequado. O maior fator de risco para lesões é o erro de treino: aumento brusco de volume ou intensidade, treinos sem supervisão, excesso de provas e falta de dias leves para recuperação. “Para iniciantes, a maior parte das diretrizes recomenda entre três a quatro treinos por semana”, afirma.
Corrida acelera o envelhecimento? Mito
Não há nenhuma evidência científica confiável que sustente a afirmação de que correr acelera o envelhecimento em 500% — ou seja, essa é uma desinformação. Na verdade, há vários estudos afirmando justamente o contrário.
Uma pesquisa publicada na PLoS One comparou ultramaratonistas com adultos saudáveis e encontrou telômeros (as extremidades dos cromossomos) 11% mais longos entre os corredores — o equivalente a cerca de 16 anos a menos de idade biológica, segundo os próprios autores.
Toda vez que uma célula se divide, seus telômeros encurtam um pouco, um processo natural associado ao envelhecimento celular. Em geral, telômeros mais longos indicam maior capacidade replicativa das células, funcionando como um marcador de menor envelhecimento biológico.
Correr causa vício em dopamina, serotonina e endorfina? Mito
Dopamina, serotonina e endorfina são substâncias no corpo ligadas à motivação, humor e prazer. Não há vício nelas, segundo o dr. Evando, e a literatura médica vai na direção contrária dessa afirmação.
“O exercício regular é uma das intervenções mais bem estudadas para melhora de humor, inclusive em depressão, com efeito comparável ao de tratamentos farmacológicos.”
O termo técnico para o problema não é “vício” em dopamina, e sim dependência de exercício, que ocorre em uma minoria dos praticantes e está fortemente associada a outros transtornos, como de alimentação e dismorfia muscular, segundo o especialista.
“Isso acontece quando a pessoa continua treinando mesmo com lesões importantes, perde controle sobre o comportamento e passa a ter prejuízo social e profissional. Mas na imensa maioria, o que temos é um efeito antidepressivo e ansiolítico benéfico, com melhora do sono, autoestima e cognição”, destaca.
A pele perde o brilho? Depende
O contato com o frio, com o sol e com o calor pode gerar um desgaste natural da pele. No entanto, se o corredor tiver alguns cuidados, pode evitar esse problema.
“Se a pessoa fizer uma boa hidratação tanto a hidratação líquida quanto a hidratação da pele e usar a proteção adequada, por exemplo: nos dias frios, correr com luvas, toucas e balaclavas; e, durante o sol, usar um boné, chapéu ou viseira, ela não vai prejudicar a pele nem o rosto”, diz o dr. Marco.
O rosto afina com a corrida? Meia verdade
Isso pode acontecer, mas não porque a corrida “afine” o rosto por si só. O que ocorre é a perda de gordura corporal, inclusive a gordura que dá volume às estruturas faciais. Quando essa reserva diminui, o rosto pode parecer mais magro. O termo médico informal para isso é runner’s face.
Corrida faz perder massa magra? Meia verdade
Correr, por si só, não causa a perda de massa magra. Porém, se a pessoa corre demais sem preparo físico adequado e ingere poucas calorias, aí o corpo pode, sim, catabolizar músculo.
Correr rompe o colágeno e desgasta articulações? Depende
Segundo o ortopedista pediátrico, o estudo das forças que atuam no corpo humano, chamado biomecânica, mostra que essa afirmação é falsa. A literatura, explicou ele, aponta justamente o oposto: uma carga mecânica repetida, dentro de limites adequados, estimula a adaptação de tendões, ligamentos, cartilagem e osso, em vez de “romper colágeno” continuamente.
“Como em qualquer tecido em treinamento, seja muscular, tendinoso ou cartilaginoso, o trauma por exercício e esforço sempre vai causar alguma forma de dano, normalmente são as dores após um treino intensivo, mas desde que o corpo tenho tempo de reparo, haverá recuperação estrutural e maior resistência a novas lesões e não um dano acumulado”, esclarece.
“Perda de massa magra costuma ocorrer quando o volume de corrida é alto, ingestão calórica e proteica insuficiente e não há estímulo de força associado. Mas isso vale para qualquer modalidade de endurance (ciclismo, triatlo, etc.), não é exclusivo da corrida”, explica o dr. Evando.
Mas praticar corrida de maneira exagerada, desrespeitando o limite do próprio corpo, pode fazer mal sim, segundo o dr. Marco. “O excesso de atividades, principalmente associado à idade, vai destruindo não só o colágeno, mas também toda a estrutura musculoesquelética tendões, cartilagens, musculatura. Em excesso, nada é bom.”
Corrida acaba com o joelho? Depende
Para a população geral e para quem pratica corrida recreativa, isso é mito. De acordo com o dr. Evando, a maioria dos estudos mostra risco igual ou até menor de osteoartrose de joelho e quadril em corredores recreativos quando comparados a não corredores.
“[Para] pessoas com joelhos saudáveis, sem sobrepeso e sem grandes lesões prévias, correr tende a ser protetor, não destrutivo.”
Por outro lado, a corrida realmente aumenta a carga sobre as articulações: a cada passada, joelhos, pés e quadris recebem de duas a quatro vezes o peso corporal, segundo o dr. Marco. No entanto, isso não significa que a corrida acaba com o joelho, mas sim que cada corpo tem um limite diferente. “As pessoas têm que achar o limite da atividade”, aconselha.
Níveis de radicais livres aumentam com a corrida? Sim
Os radicais livres são moléculas altamente reativas produzidas pelo próprio corpo. O organismo conta com um sistema antioxidante natural para neutralizar essas substâncias. A corrida, assim como qualquer exercício físico, pode gerar um aumento na produção de radicais livres, levando ao chamado estresse oxidativo situação em que o corpo não consegue mais equilibrar essa produção. No entanto, isso só acontece quando há excesso.
Segundo este estudo, os efeitos prejudiciais, como a redução da capacidade de gerar força e aumento da atrofia muscular, ocorrem principalmente após exercícios extenuantes e não regulares, enquanto o treinamento contínuo tem efeitos positivos ao estimular processos celulares que elevam a expressão de antioxidantes.
Cortisol aumenta com a corrida? Depende
O cortisol, conhecido como o principal hormônio do estresse, é produzido pelas glândulas suprarrenais e ajuda o corpo a responder a situações de esforço físico e mental, regulando metabolismo, energia e inflamação. Um estudo publicado no Journal of Endocrinological Investigation mostrou que, enquanto atividades intensas elevam significativamente o cortisol, treinos mais leves, como uma corrida tranquila, tendem a gerar pouco aumento ou até redução do hormônio após ajustes fisiológicos. Ou seja: a corrida não “desregula” o cortisol, tudo depende da intensidade.
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Por: Lucas Gabriel Marins é jornalista e futuro biólogo. Tem interesse em assuntos relacionados à ciência, saúde e economia.
Fonte: Marco Antonio Pedroni, médico ortopedista e do esporte, doutor em Ciências da Saúde e professor da Escola de Medicina de Ciências da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR)
Evando Gois, ortopedista pediátrico do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba (PR)
Transcrito: https://drauziovarella.uol.com.br/atividade-fisica/correr-acelera-o-envelhecimento-veja-o-que-e-mito-e-verdade-sobre-a-corrida/


