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Bebidas sem açúcar: zero problema ou zero vantagem?

Reduzir o consumo de açúcar e calorias faz bem fato! Mas conceder às bebidas zero o título de saudáveis são outros quinhentos. Mergulhamos nessa discussão

A cena é a seguinte: jovens filmam-se abrindo a geladeira no meio de um dia conturbado de trabalho para pegar e tomar uma latinha gelada de refrigerante.

Zero, claro! É como se, com alguns goles, o estresse fosse para o ralo. O mesmo efeito, digamos, de um cigarro.

Mas com a diferença brutal de tragar um produto sem açúcar, ou seja, que teoricamente não faz mal à saúde.

Refrigerantes, energéticos e diversos outras bebidas zero se popularizam no Brasil | Foto: (Reprodução/Internet)

Cenas assim viralizaram nas redes sociais, mobilizando uma tendência batizada de fridge cigarette  em português, literalmente “cigarro de geladeira”.

E esse é apenas um fenômeno associado à popularidade e à fama de inócuas ou até mesmo saudáveis das versões zero de bebidas e alimentos, um nicho de mercado que abocanha cada vez mais consumidores consumidores com a promessa de ao menos não fazê-los engordar ou prejudicar o organismo.

O Brasil está na crista dessa onda: de acordo com um relatório de 2024 da Femsa, responsável por levar a Coca-Cola a oito estados do país, houve 56% de crescimento nas vendas da versão zero por aqui. No mesmo período, o México, por exemplo, registrou apenas 8% de aumento.

Isso até levantou a dúvida: será que a Coca Zero já seria mais vendida que a normal no Brasil? Mas a empresa se pronunciou dizendo que ainda não é o caso.

Já a Baly, marca de energéticos brasileira que possui seis sabores sem açúcar no portfólio, superou a gigante Red Bull em vendas, e assumiu a vice-liderança no mercado de bebidas cafeinadas do país.

(Design e ilustração: Laura Luduvig/Veja Saúde)

Além de produtos zero açúcar e zero caloria, já é possível ver nos rótulos alegações como “duplo zero” ou “triplo zero”, como se isso fosse um atestado de saudabilidade.

“Há um movimento dos consumidores para reduzir o açúcar sem sacrificar o sabor, sendo ele o principal fator considerado na compra de produtos zero”, diz Gislene Cardozo, diretora-executiva da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres.

A moda pegou até entre profissionais da saúde, que propagam frases como “Não mexam com a minha coquinha zero” nas mídias sociais.

Enquanto isso, novos estudos observacionais colocam em xeque o consumo desenfreado de bebidas cheias de adoçantes artificiais, associando o aditivo a problemas de saúde que vão de declínio cognitivo a comprometimentos no fígado sem contar que os corantes dessas bebidas são acusados de relação com o câncer.

Nesse cenário, em que o prazer e a nutrição tentam andar lado a lado, os produtos zero passaram a protagonizar mais uma discussão: são mesmo saudáveis ou melhor evitar?

A origem dos produtos “zero

Para responder à questão, vale a pena um recuo ao passado. Toda essa categoria de bebidas e alimentos zero, que antes carregavam os nomes diet ou light, nasceu nos anos 1950, com o objetivo de permitir a pessoas com diabetes desfrutar de um refri ou de um docinho.

Em 1952, foi lançada nos Estados Unidos a primeira bebida com teores reduzidos de açúcar e calorias do planeta, a No-Cal. E ela foi um sucesso não apenas entre diabéticos, mas também entre donas de casa que queriam controlar o peso.

Bingo!, pensaram as grandes fabricantes de refrigerante, que passaram a lançar suas marcas com essa proposta nos anos 1960.

A categoria foi decolando, ainda com um público mais restrito, até que nos anos 1980 surgiu a Coca Diet. Com a promessa de ser tão gostosa quanto a normal, ela puxou o primeiro grande boom do segmento e logo se tornou a bebida dietética mais vendida do mundo.

Agora, com a versão Zero, o sucesso está mais do que consolidado e seduz todas as culturas, idades e classes sociais.

Mas não há como negar: assim como qualquer outro refri, a bebida continua sendo um xarope gaseificado.

“Não só os refrigerantes, mas a maioria dos produtos zero açúcar continua pertencendo à categoria dos ultraprocessados”, afirma a nutricionista Érika Carvalho, presidente do Conselho Federal de Nutrição (CFN). “E a ciência vem mostrando que a exposição diária e cumulativa a múltiplos aditivos usados nesses produtos pode ter impactos na saúde no longo prazo.”

Ou seja, o fato de ser “zero” não torna um alimento saudável. Fora que cortar um ingrediente importante para a formulação sem deixar a receita desandar não é algo simples.

“Além de dar o dulçor, o açúcar exerce outras funções na fórmula, como auxiliar na textura e na conservação. Por isso, ao tirá-lo, é preciso introduzir vários aditivos”, observa a engenheira química e consultora de alimentos Francyne Souza, da ONG ACT Promoção da Saúde.

O impacto das bebidas ultraprocessadas no organismo

De forma geral, o consumo rotineiro de bebidas ultraprocessadas com açúcar é ligado por estudos a doenças como diabetes, obesidade, gastrite, problemas renais, hepáticos e até cardíacos.

Mas e as versões zero? Ofereceriam tamanho risco?

“No caso do fígado, enquanto o refrigerante convencional representa um agressor direto ao órgão, a versão zero, se consumida constantemente, pode atuar como um facilitador, pois cria um ambiente metabólico e inflamatório que predispõe a doenças”, diz a endocrinologista Alina Feitosa, professora da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.

E antes a confusão se restringisse ao fígado. Uma pesquisa publicada no periódico da Associação Americana do Coração descobriu que indivíduos que bebem mais de 2 litros de refrigerantes por semana, mesmo o zero, corriam um risco até 20% maior de encarar um tipo de arritmia cardíaca.

Os autores ressaltam que não dá para culpar o refri sozinho, mas o ideal é maneirar.

A polêmica dos adoçantes artificiais

(Design e ilustração: Laura Luduvig/Veja Saúde)

É nesse mesmo contexto que um debate voltou à mesa: será que os adoçantes que entram no lugar do açúcar nessas fórmulas seriam inofensivos à saúde?

Os estudos toxicológicos analisados pelas agências regulatórias mundo afora garantem: eles são seguros para consumo humano nas quantidades recomendadas.

Mas grandes pesquisas populacionais recentes contestam quão inócuos eles podem ser ao longo de anos. E parece haver um contraste entre regulamentações mais antigas e evidências mais novas.

“Quando a maioria dos edulcorantes foi avaliada inicialmente, os parâmetros de segurança consideravam apenas toxicidade aguda e ingestão máxima tolerável”, afirma Carvalho.

“Hoje, evidências recentes indicam que alguns adoçantes podem alterar a microbiota intestinal, modular mecanismos de glicemia e saciedade e induzir inflamação de baixo grau”, completa a presidente do CFN.

Adoçantes aceleram envelhecimento do cérebro?

Uma análise da Faculdade de Medicina da USP, por exemplo, publicada na renomada revista Neurology, também deu o que falar ao associar o consumo de adoçantes a um declínio cognitivo acelerado.

Apesar do furor, o trabalho, baseado na avaliação retrospectiva de hábitos e dados de saúde de mais de 12 mil voluntários, não aponta uma relação de causa e efeito, do tipo “Quem bebe ficará com o cérebro pior”.

Mas não dá para desacreditar totalmente o sinal de alerta. No campo da nutrição, muitas hipóteses são levantadas a partir da avaliação do estilo de vida e das escolhas alimentares de uma população, os.chamados estudos observacionais.

O ideal, para cravar a relação de causalidade, é que tais teses sejam averiguadas em ensaios clínicos controlados — aqueles em que se dividem, aleatoriamente, as pessoas em grupos que serão instruídos a seguir comportamentos diferentes isolados, como usar ou não adoçante.

Contudo, há inúmeras barreiras para tocar investigações dessa natureza. “Na prática, questões éticas, logísticas, financeiras e metodológicas impedem que grandes estudos clínicos examinem a relação entre alimentação e saúde”, afirma a nutricionista Maria Laura Louzada, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (NUPENS) da Universidade de São Paulo (USP).

“É por isso que a interação entre nutrientes, padrões ou ambientes alimentares é avaliada por meio dos trabalhos observacionais”, conclui.

Se dependêssemos só dos experimentos clínicos para falar de riscos, não saberíamos muitos malefícios dos ultraprocessados ou do álcool, por exemplo.

Nem vilão, nem mocinho: o papel dos produtos “zero”

Dito tudo isso, embora não sejam a maravilha que propagandas e postagens insinuam, os produtos zero tampouco deveriam ser demonizados.

Inclusive porque existem pessoas que tiram vantagem deles ao preferirem essa versão à tradicional.

Para indivíduos que precisam controlar a glicemia, mesmo a OMS, contrária ao consumo generalizado de adoçantes e suas fontes, entende que pode fazer sentido a indicação.

Tal orientação se aplica às pessoas com diabetes e àquelas acima do peso e, portanto, com maior risco de desenvolver essa condição — cerca de 60% da população brasileira.

“Muitas pessoas em processo de emagrecimento precisam de componentes doces para ter mais adesão à dieta. Se o nutricionista tirar tudo, elas não vão conseguir. Daí que bebidas zero, em quantidades controladas, podem ter um papel a cumprir”, explica a nutricionista Mônica Beyruti, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).

O nutricionista Thiago Barros, mestre pela Unifesp, concorda e acrescenta que a vontade exacerbada por doces, tão presente entre os brasileiros, está intimamente relacionada a um desequilíbrio interno de nutrientes — outro fator a sabotar a alimentação.

“O refri zero é muitas vezes uma contenção de danos até que a pessoa ajuste a dieta corretamente”, diz. “As pessoas acham que, ao cortar carboidrato, vão perder peso, mas, nessa situação, em que o organismo pede energia, acabam compensando a necessidade em forma de doces”, ilustra.

Sob tal ótica, o zero seria uma opção para o emagrecimento não desandar até a pessoa se acostumar.

Ah, mas o refri zero tem muito mais sódio que o original, não? Barros desmitifica essa história pontuando que o ideal é consumir no máximo 2 mil mg do mineral por dia, e uma lata de Coca Zero oferece menos de 50 mg (2,5% do total recomendado).

“Tem marmita fit congelada que possui de 40 a 80% do valor diário estipulado de sódio, e ninguém aponta o dedo para elas”, compara o nutricionista.

É claro que o profissional não está dando passaporte livre para abrir a geladeira toda hora; o ponto é alinhar as expectativas.

(Design e ilustração: Laura Luduvig/Veja Saúde)

Lembrando: ser “zero” não é sinônimo de ser é saudável

O universo “zero”, aliás, comporta uma miríade de produtos, com direito a bolos e outros quitutes. O que você precisa ter em mente é o seguinte: não é porque eles estampam essa palavrinha na embalagem que viram sinônimo de saudáveis.

“Muitas vezes, a versão zero açúcar de um alimento compensa sua formulação com mais gordura, o que deixa o produto final com a mesma quantidade ou até mais calorias que o original”, exemplifica Beyruti.

Portanto, é preciso ficar sempre de olho no rótulo.

Nutrição depende de padrão e contexto. Levando isso em conta, se a dieta anda bem equilibrada, uns goles de refrigerante gelado (normal ou zero) para relaxar de vez em quando não serão o fim do mundo.

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Por: Ingrid Luisa Materia

Fonte: Alina Feitosa, endocrinologista professora da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública

Maria Laura Louzada, nutricionista do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (NUPENS) da Universidade de São Paulo (USP)

Gislene Cardozo, diretora-executiva da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres

Francyne Souza, engenheira química e consultora de alimentos da ONG ACT Promoção da Saúde

Mônica Beyruti, nutricionista da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso)

Transcrito: https://saude.abril.com.br/alimentacao/bebidas-zero-saude/

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