O que o nosso DNA realmente tem a dizer sobre a famosa dieta paleolítica?

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Ela tem se sido a mais procurada por quem quer perder peso e se manter saudável. Estudos indicam que ela apresenta aspectos positivos, mas sempre merece cautela
Um artigo publicado em 1985 no conceituado periódico New England Journal of Medicine intitulado “A nutrição paleolítica, a consideração de sua natureza e as suas implicações atuais”, trazia uma nova possibilidade de dieta que argumentava que o corpo humano não é “geneticamente programado” para a dieta moderna ocidental. 
Nascia então o movimento paleo, indicando que a alimentação deve voltar a ser como dos nossos ancestrais caçadores e coletores da era paleolítica e que nosso organismo não reage nada bem a dieta contemporânea. Segundo dois pesquisadores da área de evolução humana, Boyd Eaton e Melvin Konner, a constituição genética humana mudou relativamente pouco desde o aparecimento dos seres humanos modernos cerca de 40 mil anos atrás. 
Isso indica que a alimentação como nos tempos remotos pode ser muito benéfica para saúde e de maneira contrária a alimentação moderna está associada ao desenvolvimento de muitas doenças. Os pesquisadores trazem que o organismo humano foi moldado por um tempo prolongado como caçadores e coletores e que o advento da agricultura e da maior concentração populacional ocorreu em um breve período de tempo quando comparado a história da evolução humana. A alimentação era baseada em carnes, frutas, castanhas e não com pães, cereais, leites e queijos como nos dias atuais.
Após três décadas de sua descrição nesse primeiro artigo, a dieta paleo nunca esteve tão na moda. Aliás, deixou de ser uma dieta para tornar-se um movimento. Hoje, além da dieta existe o exercício paleo e até a maneira paleo de dormir. Tudo isso com inúmeros adeptos em todo o mundo. Basta procurar nas redes sociais e apareceram diversos usuários paleo, livros de receita, best sellers… Todos trazendo o conceito de que os hábitos da era paleolítica são muito mais adequados para nossa saúde e boa forma.
Enquanto a dieta paleo tornou-se a mais procurada no Google em 2013 e 2014, alguns biólogos evolucionistas passaram a usar modernas tecnologias de sequenciamento de DNA em ossadas antigas para realmente comprovar se a evolução do nosso genoma foi mesmo tão pequena assim. E o que eles tem descoberto é que na verdade, nós evoluímos sim e o nosso DNA parece já não ser mais tão igual ao dos homens da caverna. 
No último ano, revistas científicas renomadas publicaram fortes evidências de mudanças genética importantes no últimos 10 mil anos aparentemente relacionadas à transição da humanidade em resposta à agricultura. Foram encontradas mudanças associadas a sobrevivência à dieta pós-agricultura, relacionada à resistência à caries e também à digestão de amidos, gorduras e proteção ao desenvolvimento de doenças. 
Segundo alguns desses cientistas é errado afirmar que o ser humano não evoluiu geneticamente desde a era paleolítica. Nos últimos 10 mil anos a dieta mudou drasticamente e o genoma humano evolui também. Um exemplo disso é o fato de que algumas populações são capazes hoje de digerir o leite mesmo em idade adulta. Isso foi uma seleção relativamente recente na humanidade. 
Recentemente também foi descoberta uma variação do gene AMY1, que confere a habilidade de uma digestão melhorada de amidos e cereais. Essa variante em algumas populações tornou-se extremamente benéfica principalmente para sobrevivência de crianças.
Já alguns cientistas ainda reforçam que apesar do nosso genoma ter, sim, evoluído, ainda somos geneticamente muito parecidos com nossos ancestrais dos tempos da caverna. Em meio a controvérsias, o importante de ressaltar é que todos esses estudos sinalizam que existem variações individuais e toda dieta da moda pode ser benéfica para alguns e até mesmo prejudicial para outros.
O ideal é identificar e observar como o organismo se comporta em relação aos diversos grupos alimentares. Mas um aspecto da dieta paleo é certo: quanto menos nos alimentarmos com produtos industrializados e distantes da realidade paleolítica, mais estaremos contribuindo com a nossa saúde e bem-estar.
Referências:
Konner M1, Eaton SB. Paleolithic nutrition: twenty-five years later. Nutr Clin Pract. 2010 Dec;25(6):594-602.
Eaton SB, Konner M. Paleolithic nutrition. A consideration of its nature and current implications. 
N Engl J Med. 1985 Jan 31;312(5):283-9.
Perry GH1, Kistler L2, Kelaita MA3, Sams AJ4. Insights into hominin phenotypic and dietary 
Evolution from ancient DNA sequence data. J Hum Evol. 2015 Feb;79:55-63.
Fonte:LIA KUBELKA DE CARLOS BACK
Mestre em biotecnologia e doutora em biologia celular e do desenvolvimento com habilitação em genética molecular humana pela UFSC. É membro da American Society of Human Genetics e do Institute for Functional Medicine. Hoje é diretora técnica do Biogenetika, centro de medicina individualizada.
Transcrito:http://globoesporte.globo.com/eu-atleta/saude/noticia/2016/02/o-que-o-nosso-dna-realmente-tem-dizer-sobre-famosa-dieta-paleolitica.html

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