Câncer de ovário: dá pra podar mais cedo?

Banner de dentro dos postsA doença se esconde atrás de sintomas difusos e chega a escapar de exames. Saiba o que pode ser feito para se proteger

No corpo humano, a nobreza de um órgão não depende do seu tamanho. Basta pensar num par diminuto abrigado na pelve das mulheres. Os ovários produzem os hormônios femininos e os óvulos, ou seja, os ingredientes que garantem a maternidade e o perpetuar da nossa espécie. Só que, da mesma forma que seu bom funcionamento tem uma tremenda repercussão, se eles viram alvo de um câncer o estrago é enorme. Trata-se do tumor ginecológico com maior taxa de mortalidade. No ano passado, ele atingiu mais de 5 mil brasileiras. E a estimativa é que três quartos dos casos chegam ao consultório em estágio avançado, quando o mal já se espalhou.

O atraso no flagra da doença não se restringe à pequena dimensão das glândulas. O problema é que os primeiros sintomas se confundem facilmente com os de outras encrencas. Para ter ideia de como as manifestações desse câncer confundem a cabeça, um levantamento do governo australiano aponta que menos da metade das mulheres reconhece seus traços mais comuns, como aumento do volume no abdômen, sensação de bexiga cheia e dificuldade para evacuar. “Por vezes, a pessoa acha que tem uma desordem intestinal e demora a chegar ao ginecologista, que seria capaz de fazer o diagnóstico”, diz a oncologista Alessandra Morelle, do Hospital Moinhos de Ventos, em Porto Alegre.

No que ficar de olho, então, diante de um cenário tão propenso a pegadinhas? Que tal mirar os genes, ou melhor, sua família? “Não é exagero dizer que analisar o histórico familiar da paciente pode salvar uma vida”, crava o oncologista Stephen Stefani, do Hospital Mãe de Deus, também na capital gaúcha. Se a mãe, a avó ou uma irmã teve a doença, já sabe: atenção ao máximo. “Quando há casos na família, indicamos um mapeamento genético”, conta o oncologista Oren Smaletz, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Testes desse tipo acusam, por exemplo, mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, que indicam alta possibilidade de desenvolver um câncer no ovário e nas mamas. E sinalizam a necessidade (ou não) de fazer um monitoramento frequente e até optar pela retirada preventiva das glândulas — caso da atriz Angelina Jolie, que corria um risco de 50% de sofrer com o mal.

Além da hereditariedade, o acaso também conspira a favor da doença. E, nesse ponto, o alerta apita para as mulheres na menopausa ou que passaram dos 50 anos. É que, a cada ovulação, forma-se uma pequena ruptura na parede do ovário. E essa alteração, com o passar do tempo, pode abrir caminho a um tumor. Por essa razão, a pílula anticoncepcional parece reduzir o risco do perigo. Como ela suprime a ovulação, apareceriam menos lesõezinhas capazes de evoluir para algo pior.

Como o checkup ginecológico convencional não costuma denunciar a doença no início, se a mulher reúne fatores de risco, a postura no consultório muda. O acompanhamento deve se tornar mais assíduo e o médico indica dois exames semestrais: o ultrassom transvaginal e a medição dos níveis da CA125, proteína cuja abundância no sangue indica maior probabilidade de os estragos acontecerem. “Ainda assim, os resultados nem sempre são precisos e o tumor pode progredir”, diz o oncologista Fernando Maluf, diretor do Centro Oncológico Antônio Ermírio de Moraes, em São Paulo. Não é à toa que os cientistas quebram a cuca em busca de um método certeiro.

O fato de os exames atuais não garantirem ovários a salvo é justamente o que tem propulsionado, em uma parcela das mulheres com teste genético positivo, a realização de cirurgias para extirpar as glândulas e as tubas uterinas como precaução. Essa opção cobra muita conversa com o médico e não é recomendada para todas, mas… “Pode ser pertinente pensando na alta probabilidade de o tumor aparecer”, opina Maluf. Como na vida da atriz Angelina Jolie, que perdeu a mãe e a avó para o câncer.

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Vamos à luta?

Felizmente, o tratamento dos tumores ovarianos avançou nos últimos anos. Se o diagnóstico for precoce, a ideia é cortar o mal pela raiz, e uma operação é indicada para remover a glândula comprometida. À medida que a doença progride, o outro ovário, bem como o útero e as tubas uterinas, entra na lista das estruturas a serem retiradas – e, aí, há que se pensar em alternativas à infertilidade causada pelo procedimento. “Quando a cirurgia é bem-sucedida, a paciente costuma ter muitos anos pela frente”, diz a oncologista Daniela de Freitas, do Hospital Sírio-Libanês, na capital paulista. Em alguns casos, sessões de quimioterapia são solicitadas para assegurar que o problema foi mesmo erradicado.

75% dos casos de câncer de ovário chegam ao consultório em estágio avançado

Já estágios mais avançados da enfermidade — quando ela se espalha pra valer — cobram químio mais intensa para diminuir o volume e a extensão do câncer, além de cirurgia e outros medicamentos. “O tratamento se aperfeiçoou e as pacientes estão vivendo mais e melhor”, afirma Smaletz. Agora, ainda que os centros de pesquisa continuem à caça de melhores soluções, um recado continuará valendo: quanto antes for o diagnóstico, maiores serão a expectativa e a qualidade de vida.

E quando eles estão cheios de cistos?

Diferentemente do que muitos imaginam, a síndrome dos ovários policísticos não aumenta o risco de um tumor maligno dar as caras ali. A presença do distúrbio, marcado por um baita desarranjo hormonal, até evitaria indiretamente o surgimento de um câncer. “Isso porque as pacientes são orientadas a tomar o anticoncepcional desde cedo, e ele é um fator de proteção”, esclarece Jesus Paula Carvalho, chefe da equipe de ginecologia oncológica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo. Como a pílula deixa as glândulas meio que dormentes, cai a frequência de alterações potencialmente perigosas que são fruto da ovulação

Sinais suspeitos

Quando eles persistem por um tempo, cabe uma investigação médica mais aprofundada

Abdômen mais cheinho
Como o tumor de ovário costuma crescer em ritmo acelerado, as células cancerosas conseguem escapar e chegar a outras regiões do abdômen. Liberadas ali, desencadeiam um processo inflamatório que acarreta o acúmulo de líquido. Daí o inchaço na barriga.

Intestino travado
O crescimento do câncer, bem como o depósito de líquido, pode pressionar o que está por perto. Nem o intestino escapa. Ao comprimir o órgão, os movimentos peristálticos ficam prejudicados, dificultando as idas ao banheiro. Há casos em que a passagem das fezes é interrompida por completo.

Bexiga que nunca esvazia
Bate a vontade de fazer xixi, a mulher corre para o banheiro e, pouquíssimo tempo depois, a sensação de bexiga cheia persiste. Isso acontece porque, com a expansão do tumor, a estrutura que armazena a urina fica pressionada. Aí, o espaço disponível para o xixi diminui e a visita ao toalete acontece a toda hora.

ESCRITO POR

LÍGIA VASCONCELOS (COLABORADORA)

Fonte: Maria Del Pilar Estevez Diz, médica coordenadora da oncologia clínica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo

Transcrito:http://mdemulher.abril.com.br/saude/saude-e-vital/cancer-de-ovario-da-pra-podar-mais-cedo

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